CAÇAS

Os números de Trump que «temos que admitir»

Os números de Trump que «temos que admitir»
O sono é bom conselheiro. Depois de assistir, entre as 2 e as 3,15 da madrugada, ao discurso do presidente americano sobre o estado da Nação, passei em breve revista o que se passava nas redacções de televisão que ainda estavam acordadas. E tive dúvidas. Tive dúvidas sobre o que era mais confrangedor, se o…

O sono é bom conselheiro. Depois de assistir, entre as 2 e as 3,15 da madrugada, ao discurso do presidente americano sobre o estado da Nação, passei em breve revista o que se passava nas redacções de televisão que ainda estavam acordadas. E tive dúvidas. Tive dúvidas sobre o que era mais confrangedor, se o gesto de Nancy Pelosi, a líder democrata no Congresso, ao rasgar a sua cópia do discurso, se a ginástica dos painéis da RTP e da Tvi, onde se procurava aflitamente encontrar mentiras ou contradições no discurso. O afã era tal que um dos presentes dizia às tantas que entre as afirmações e números referidos por Trump via uns que «temos que admitir». «Temos que admitir», dizia ele, numa daquelas frases que saem sem querer, e põem ao léu toda uma agenda.

De manhã, porém, este tipo de jornalistas já dormira e concluira que a melhor reacção era ignorar o conteúdo, omitindo-o, e concentrar-se no acessório. Sim, o sono foi-lhes bom conselheiro.

Mas, o que era, então, tão doloroso para eles «admitir» no discurso de Donald Trump sobre o estado da Nação norte-americana?

Eram insuportáveis os números, primeiro:

— que o incapaz e incompetente pudesse gabar-se da criação de 7 milhões de novos empregos e da taxa de desemprego mais baixa dos últimos 50 anos;

– que o racista e xenófobo pudesse invocar as taxas de desemprego de americanos de origem Africana, Latina ou Asiática mais baixas de sempre;

– que o machista pudesse orgulhar-se da taxa de desemprego de mulheres mais baixa dos últimos 70 anos e de que no último ano 72 por cento dos novos empregos tenham sido preenchidos por mulheres;

– que o velho senil, inculto e insensível pudesse orgulhar-se da taxa de desemprego entre americanos com deficiência mais baixa de sempre, e de uma taxa de emprego jovem recorde;

– que o milionário e especulador pudesse inscrever no seu historial a mais baixa taxa de desemprego de sempre entre os trabalhadores sem curso liceal, ou que os trabalhadores com salários baixos tivessem registado um aumento de rendimentos de 16% nos últimos 3 anos. E que tivesse, por fim, o extremo descaramento de proclamar que os EUA estão perante um «blue collar boom» (serão os tais a que a outra chamava deploráveis) , e que os rendimentos da classe média são os mais altos de sempre.

Era insuportável que um ricaço e racista honrasse um cidadão negro recuperado à droga e ao desemprego e depois o primeiro piloto aviador de caças negro, McGee, que fez cem anos em dezembro e estava presente com o bisneto de 13 anos, que sonha com uma carreira espacial; e honrasse, depois, o chefe da polícia fronteiriça, que é um cidadão de origem mexicana, de nome Ortiz.

Era insuportável que o bárbaro que ia lançar o pânico e a crise no comércio mundial afinal não tivesse lançado nem uma coisa nem a outra, antes podendo proclamar resultados de renegociações altamente favoráveis para a economia americana com México, Canadá e China.

Era insuportável, acima de tudo, que todos os elementos de uma política avessa ao socialismo, e inimiga do socialismo (a livre escolha na educação, a livre escolha na saúde, a acentuada baixa de impostos, a desburocratização, o primado da iniciativa privada) produzissem tão bons resultados. O que o primeiro-ministro de um dos três países mais pobres da UE considera «pensamento mágico», colocou os EUA, maior potência económica mundial, a crescer duas vezes mais que esta nossa pátria pobre, e iluminada pela magia socialista.

Como o sono é bom conselheiro, de manhã os media enviesados de Portugal já sabiam como melhor proceder.

Primeiro, ignorando o discurso, antes focando o fait divers de que Nancy Pelosi rasgara a sua cópia do discurso, de pé e para toda a gente ver. Para eles, como para quem não quer ouvir e muito menos noticiar, é «a imagem que fica» e que «roubou as atenções». É claro que o gesto vai custar aos democratas menos um ou dois décimos nas preferências em que se enterram sem compreenderem, mas tanto eles como os jornalistas portugueses compreenderão só depois.

Segundo, supreendendo-se que Trump não tenha dedicado uma linha, um àparte, um ressentimento, uma vingança ao defunto impeachment. Também nisto, os media portugueses são como os democratas americanos, ainda não compreenderam que o impeachment lhes saiu pela culatra e que já ninguém quer saber.

Terceiro, condenando veladamente o facto de o discurso de Trump, além de politicamente forte, ter sido um espectáculo de televisão. Sim um show verdadeiro, com momentos emocionais, condecorações de surpresa, regressos de combatentes aos braços da família encantada, a celebração a Juan Gaidó, «o verdadeiro presidente das Venezuela», presente, e a promessa de apoio a mais um país que o socialismo destruiu.

Para mim, foi este, talvez, o aspecto mais surpreendente das reacções nos orgãos de informação portugueses. Não me surpreende que queiram afastar ou desmentir ou condenar o presidente de outro país, porque concedo que há muito perderam todo o sentido de ridículo. Mas ainda me surpreende que profissionais de media e televisão fiquem amofinados ao constatar que um profissional da política percebe mais do que eles de media e televisão. Mas, enfim, temos que admitir…

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